Retirado de UNESP ProPeTips: Propetip 36 - Acrônimos na Publicação Científica
ACRÔNIMOS NA PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
Sigmar de Mello Rode
Com o constante aumento do número de publicações e com o custo cada vez mais elevado para publicar, usar siglas, abreviaturas e acrônimos pode ser uma alternativa para diminuir o tamanho do texto e, ao mesmo tempo, tentar facilitar a leitura, uma vez que não ocorre a repetição de um termo todas as vezes que precisar se referir a ele.
Acrônimo (do grego: ákron - ponta, extremidade, + ónyma - nome) é um tipo de abreviação formada pela letra inicial, ou por mais de uma letra, de uma palavra, que associada a outras irão compor um nome ou um título que será soletrado como uma única palavra com o propósito de simplificar a comunicação. Normalmente são descritos em letras maiúsculas. Um exemplo é o termo LASER (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation), ou a própria UNESP. O problema mais comum é que as abreviaturas podem ser indefinidas ou ambíguas e, portanto, gerar confusão.
Embora tenha a intenção de simplificar, o uso generalizado e intenso de acrônimos pode dificultar, e muito, a leitura quando o leitor pode ter que ficar voltando no artigo o tempo todo para lembrar o que representa o acrônimo usado para permitir a compreensão do texto ou utilizar uma tabela para descobrir o significado. Nesse caso, o efeito é contrário, e a leitura fica muito mais difícil e pode levar a uma frustação do leitor em relação ao trabalho. Em algumas vezes pode levar a um entendimento confuso ou diferente do significado do artigo.
Muitos pesquisadores já alertaram sobre o uso excessivo de acrônimos que podem causar ambiguidades, mal-entendidos e ineficiências (Patel & Rashid, 2009, Narod et al., 2016, Weale et al., 2018, Lang, 2019, Barnet & Doubleday, 2020).
É muito difícil estabelecer uma regra geral sobre quais acrônimos utilizar, é preciso ter bom senso. Quando trata-se do uso de acrônimos sobejamente conhecidos e utilizados (DNA, RNA, ONU) é aconselhável que sejam utilizados no texto. No entanto, quando se trata de abreviaturas pouco conhecidas ou aquelas criadas pelo próprio autor, devem ser evitadas.
Barnet & Doubleday (2020) examinando mais de 24 milhões de artigos, publicados entre 1950 e 2019, identificaram que em mais de um milhão de siglas utilizadas, pouco mais de 2000 (0,2%) foram usadas regularmente, e a grande maioria (79%) apareceu menos de 10 vezes. Também identificaram que o mesmo acrônimo pode ter diferentes significados, dependendo de quem escreveu ou da área de conhecimento do texto. Por exemplo, Lang (2019) encontrou para o acrônimo UA em artigos médicos, 18 possíveis significados (ulnar artery, ultrasonic arteriography, umbilical artery, upper airway, etc.)
Não se deve utilizar acrônimos no título do trabalho e recomenda-se também evitar ao máximo em resumos. No corpo do trabalho se o acrônimo aparecer poucas vezes no texto não é necessário usá-lo, a não ser que o termo seja mais conhecido pela sigla do que pelo significado (UNICEF, FAPESP).
De acordo com Narod e colab. (2016) são poucos os relatos positivos sobre o uso de acrônimos na fluência da leitura, mas há fortes evidências linguísticas que eles dificultam a compreensão do texto
Os periódicos podem reduzir o número de acrônimos, permitindo somente o uso de siglas bem reconhecidas ou estabelecer um número mínimo de repetições para justificar o uso, desde que essa informação esteja claramente descrita nas instruções aos autores. Uma outra forma de resolver o problema é, na leitura digital, utilizar hiperlink ou um software, que ao posicionar o ponteiro do mouse sobre o acrônimo, aparece o significado completo.
Resumindo, seguem algumas recomendações básicas:
1. Use abreviaturas apenas se seu significado for claro e se forem úteis;
2. Não use acrônimos no título do trabalho e evite fortemente usar no resumo;
3. Se a sigla/acrônimo aparecer menos de três vezes no texto não é necessário usá-la, a não ser que o termo seja mais conhecido pela sigla do que pelo significado;
4. Usar acrônimos não evita redundância no texto nem uma leitura mais rápida;
5. A primeira vez que o acrônimo aparecer no texto deve ser descrito por extenso, seguida da sigla entre parênteses, e não o contrário;
6. É comum que as pessoas não comecem a ler o artigo a partir da Introdução, portanto, alguns editores recomendam que as siglas sejam apresentadas por extenso em cada nova seção do artigo. Isso inclui também figuras e tabelas.
7. Os termos Latinos “isto é” (that is - ie) e “por exemplo” (for example - eg) são muitas vezes abreviados no texto em artigos em inglês, principalmente em explicações dadas entre parênteses.
Referências
Patel CB, Rashid RM (2009) Averting the proliferation of acronymophilia in dermatology: effectively avoiding ADCOMSUBORDCOMPHIBSPAC
Journal of the American Academy of Dermatology 60:340–344.
https://doi.org/10.1016/j.jaad.2008.10.035
Narod S., Ahmed H, Akbari M (2016) Do acronyms belong in the medical literature? Current Oncology 23:295–296.
https://doi.org/10.3747/co.23.3122
Weale J, Soysa R, Yentis SM(2018) Use of acronyms in anaesthetic and associated investigations: appropriate or unnecessary? - the UOAIAAAIAOU study Anaesthesia 73:1531–1534.
https://doi.org/10.1111/anae.14450
Lang, T. (2019) The long and the short of abbreviations European Science Editing 45:11-14.
https://doi.org/10.20316/ESE.2019.45.18018
Barnett A, Doubleday, Z (2020) Meta-Research: The growth of acronyms in the scientific literature eLife 9:e60080.
https://doi.org/10.7554/eLife.60080